Existe uma frase antiga que diz o seguinte: “imitar é a forma mais sincera de elogiar” (Charles Caleb Colton, escritor inglês)-
Seguindo esta ordem de ideias, então poderemos dizer que
atualmente, isto falando do mundo das motos e scooters, algumas (muitas!)
marcas chinesas devem ser, neste momento, os maiores admiradores de marcas como
a Honda, Yamaha, Kawasaki, BMW, Ducati, Harley-Davidson e pelos vistos, também
da marca taiwanesa KYMCO.
E atenção: antes que alguém comece a preparar-se para criticar-me
(mesmo que o façam estou-me completamente a borrifar para isso!), deixem-me
esclarecer uma coisa:
Não tenho absolutamente nada contra esta nova geração de
motos e scooters – e também automóveis -, ao contrário do que acontecia com
aqueles pedaços de plástico e metal, de péssima qualidade (para não dizer
pior!), com que fomos invadidos no começo do século e que tantos problemas
causaram a quem os comprou. Sim, claro que houve quem defende-se com unhas e
dentes, aqueles zingarelhos mal paridos, mas o certo é que tudo aquilo que
escrevi aqui, nos meus dois blogues, veio a concretizar-se, ou seja, tal como
apareceram, também desapareceram, deixando muita boa gente, agarrados a motos e
scooters que simplesmente não funcionavam e para as quais deixou de existir
qualquer tipo de assistência e peças de substituição.
E, entretanto, o que aconteceu? A China, percebendo o erro
que cometeu, soube, muito bem, dar um
passo atrás, rever todo o seu plano de produção e contando com a grande ajuda
do estado chinês que passou e continuar a apoiar a sua indústria e também com
a típica “paciência de chinês”, soube
dar a “volta ao texto” resultando naquilo a que todos estamos a assistir e isto
tanto diz respeito, às motos como aos automóveis.
Tenho acompanhado a evolução desta indústria, seria
impossível não reconhecer que algumas marcas chinesas deram, em pouco mais de
uma década, um salto tecnológico impressionante.
No entanto, o maior problema não está em fazer motos boas,
baratas e bem equipadas.
O problema começa quando a inspiração se torna limitada e
por isso temos de olhar para o lado e ver o que os rivais estão a fazer e por
isso é que, quando olho para muitas das motos de produção chinesa, fico com aquela
sensação estranha, ou não, de que já vi algo parecido noutro lado, aquela
típica sensação de “déjà-vu”!
O pior é quando isso passa de ser apenas uma sensação e
passa a ser verdadeiro!
E é aqui que as coisas começam a complicar e as marcas
consagradas, começam a não achar muita piada, ao que podemos chamar, grande
descaramento, por parte d e alguns fabricantes chineses.
E de certeza que foi isso que aconteceu com a Kymco a qual,
apesar de ser taiwanesa, não é propriamente uma recém-chegada ao mundo das duas
rodas, sobretudo no que diz respeito às scooters e é precisamente aqui que a
“porca torce o rabo”!
A Kymco veio recentemente a público esclarecer que não deu
autorizou à QJ Motor par que esta pudesse utilizar a plataforma tecnológica da sua
scooter topo de gama, a AK 550, isto depois de terem surgido comparações que
levantavam suspeitas sobre as grande semelhanças existentes entre a nova
scooter da QJ Motor, a Fort 600 e a conhecida e reconhecida maxi-scooter da
marca taiwanesa.
E quando uma marca, seja ela qual for, sente necessidade de dizer publicamente que “não autorizou” outra a utilizar a sua tecnologia…
Mas vamos lá tentar entender, minimamente, o que se passa: a
nova Fort 600 utiliza um motor bicilíndrico paralelo, cuja arquitetura e tecnologia usada, segundo as comparações já publicadas,
tem demasiadas semelhanças com a AK 550: motor e transmissão separados,
embraiagem multidisco banhada em óleo e um tipo construção muito parecido, incluindo
o quadro em alumínio.
Assim de repente, sto não parece nada demais. No entanto, analisando a coisa de forma mais cuidada e nisto a Kymco parece ter toda a razão pois, segundo o que a própria marca afirmou, para o desenvolvimento, tanto do quadro como sobretudo do propulsor, obrigou ao registo de mais de 45 patentes novas.
Por enquanto, a Kymco aguarda que a Fort 600, chegue
oficialmente ao mercado – foi apresentada pela primeira ao público, no EICMA
2025 – para então decidir o que fazer e é aqui que surge a pergunta que vale um
milhão de euros:
Como é que as duas marcas, primeiro a Kymco cujo AK 550 já
está no mercado há alguns anos e agora a QJ, chegaram, às “mesmas” soluções
técnicas?
E como é que ficamos perante a existência de soluções
técnicas, que pelos vistos foram inventadas/criadas/desenvolvidas pela Kymco e
que pelos vistos estão protegidas pelas patentes e direitos de propriedade
intelectual?
Assim de repente, lembro-me de alguns casos que aconteceram
no passado e que deram muito que falar.
Posso começar pelo caso Honda/Shineray, caso que aconteceu
no Brasil, por volta de 2012 e que apenas terminou muitos anos depois.
E isto porque a Shineray, fabricou durante algum tempo, motos que eram autênticos clones, tanto da mítica Honda CG 150 como da NXR 150 Bros, modelos que na altura dominavam por completo o mercado brasileiro, sobretudo a CG.
Este polémico processo arrastou-se durante mais de uma
década e acabou com a marca chinesa Shineray a ter de pagar mais de 9 milhões
de reais de indemnização à marca japonesa, além da obrigação de retirar dos
concessionários todas as unidades dos modelos em questão que ainda estavam à
venda.
Depois temos algumas histórias sobre plágio que são
verdadeiramente hilariantes, tal como aconteceu com a marca chinesa Suculi (?)
que apresentou a sua S1000 RR, uma cópia da famosa moto desportiva da BMW e
sobre a qual nem tentou disfarçar a coisa, nem que fosse mudando o nome da
moto, mas não, tomem lá uma S1000 RR!
Então e o que me dizem da Moxiao (?) 500RR, uma cópia quase perfeita da Ducati Panigale, pelo menos quando vista ao longe?
Querem que pare ou que continue? Ok, mais uma e aqui regresso outra vez Shineray – são teimosos, hein?
Neste caso, a marca chinesa apresentou um motor V-Twin Evolution de 1.200 cc, uma
verdadeira cópia do conhecido motor da
Harley-Davidson, que equipou, entre outras, a Sportster.
Toda a arquitetura
mecânica deste propulsor apresentado pela Shineray é exatamente igual à do
antigo motor da marca norte-americana, incluindo as dimensões tanto externas
como internas, configuração V-Twin com inclinação de 45 graus e a típica
distribuição através de arvore de cames servidas por varetas.
A parte hilariante da
coisa é que a Shineray afirmou na altura que este motor foi desenvolvido a
partir de uma folha em branco e de forma independente.
Coincidências do caraças, tão “coincidências” que a própria
Harley-Davidson já esrá de olho no caso, tendo já acionado o seu departamento
judicial para que estude este caso e avance com a devida queixa.
Neste caso, como se não bastasse, a marca SWM – que por mero “acaso”, pertence à Shineray – apresentou um novo modelo, a Stormbreaker 1200, equipada precisamente com este motor!
Que grande lata têm estes chineses!
Já chega, ou ainda querem mais?
Ok, confesso que também estou a divertir-me “bué”, enquanto
procuro por estes casos na internet, por isso vou continuar apesar de este
texto já ir muito longo, mas já sabem como sou, colocam-me um teclado na frente
e… não paro!
Ora vamos lá então: parece
que também a conhecida CFMoto, está a braços com um importante processo, nos
Estados Unidos da América, colocado pelo gigante Polaris, em Janeiro deste ano.
No processo, a Polaris alega que a CFMoto violou dez das suas patentes, relacionadas com os seu veículos “side-by-side”, incluindo chassis, transmissão, sistema de arrefecimento do motor e até mesmo a zona do condutor..
Este caso, Polaris versus CFMoto, está a ser analisado pela U.S. International
Trade Commission.
E no entanto, nem tudo pode ser considerado plágio e aqui
dou o exemplo do que se passa entre a Locin e a BMW. Neste caso, é facto
conhecido que o gigante construtor chinês, fabrica os motores de 895 cc que equipam as BMW F900 GS e,
basicamente podemos ver o mesmo motor (com algumas diferenças ao nível da eletrónica)
a equipar alguns modelos da Voge, que é apenas a marca “premium” da Locin.
Neste caso, como é óbvio parece existir uma óbvia uma
relação industrial real entre as empresas, ou seja, a marca bávara recorre a
fabricante chinês para a produção deste motor e a Locin pode usar o mesmo motor
nas suas motos.
Portanto, pelo que se percebe, existe um acordo entre as duas marcas e como é óbvio, isto não e plágio, mas sim, apena e só um acordo comercial e tanto é assim que ainda ninguém viu a BMW a queixar-se que o seu motor tinha sido plagiado.
E há uma coisa muito importante e que me parece cada vez
mais evidente:
A China já não precisa de copiar!
E digo isto como um verdadeiro elogio, perante tudo aquilo a
que estamos a assistir.
Por exemplo, a CFMOTO, apresenta atualmente uma capacidade
própria de desenvolvimento muito diferente daquela que associávamos à indústria
chinesa há 15 ou 20 anos. E mesmo nesse tempo, na altura dos tais zingarelhos “mal
paridos” já os produtos da CFMoto, sobretudo scooters, demonstravam uma qualidade
muito acima do que era feito pelos outros fabricantes chineses, aliás, tal como
referi num artigo que escrevi no longínquo ano de 2013, no GostodeScooters.
A própria marca diz que atualmente, tem ao seu serviço mais
de 200 designers e técnicos, espalhados por cinco países e mais de 540 novas
patentes registadas.
A realidade é que já existem fabricantes chineses capazes de
desenvolver produtos próprios, motores próprios, eletrónica própria e soluções
técnicas bastante interessantes.
E é aqui que surge a pergunta mais importante de todas:
Se já sabem e têm capacidade para fazerem as suas próprias
motos, porque é que aqui e ali, ainda copiam os produtos dos outros fabricantes?
Um dos problemas é que, por exemplo, planear, desenhar e
construir um motor de raiz, leva muito tempo e dinheiro, sendo mais fácil e
barato utilizar um motor que já existe, sendo através do fabrico do mesmo,
através de um acordo entre o proprietário desse propulsor e de quem o quer
usar, ou algo que ainda fica mais barato é simplesmente, copiar!
E aqui o lado financeiro é a principal questão, ou se quiserem
o principal argumento, pois fica sempre muito mais barato copiar! E esta é
provavelmente a verdadeira razão pela qual estas situações continuam a aparecer
pois o desenvolver de raiz um motor ou uma moto, custa muito dinheiro e leva
muito tempo. São anos de engenharia, testes, protótipos, homologações, ensaios
de durabilidade, desenvolvimento de motores, eletrónica, chassis, travagem,
suspensão.
Ora, copiar, é muito mais fácil, rápido e barato!
Resumindo e concluindo e para terminar este extenso “testamento”,
o certo é que, com a entrada em força - para o bem e para o mal -, dos
fabricantes chineses no mercado europeu (e não só!) na minha
A entrada maciça de fabricantes chineses no mercado europeu
é, na minha opinião, inevitável e, em muitos aspetos, positiva pois, como eu costumo
dizer, seja em que negócio for, qualquer tipo de concorrência é sempre positivo. Isso obriga a que as marcas que já estão confortavelmente instaladas (muitas delas a viverem à sombra dos louros!), sejam
obrigadas a serem mais competitivas a todos os níveis, obrigando a que reforcem
a apresentação de novos modelos e sobretudo, que não se estiquem no que diz
respeito aos preços pedidos pelos seus produtos e isso apenas vai fazer com que
o consumidor seja o mais beneficiado, seja através de mais e melhores motos e
com preços bastante competitivos.
Carlos Veiga 29/09/2026
.webp)
.webp)






Sem comentários:
Enviar um comentário